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Sociedade Brasileira de
Atendimento Integrado
ao Traumatizado

25 anos 25 anos - combatendo a doença de trauma

Estado de Minas - Junho / 2007

Estado de Minas (jornal), 24 de Junho de 2007, Bem Viver, pág. 6.

Cirurgia do trauma.

Entrevista: Gustavo Pereira Fraga
Professor-Assistente e Doutor da Disciplina de Cirurgia do Trauma do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e integrante da diretoria da Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Traumatizado (Sbait) e da Sociedade Panamericana de Trauma (SPT).

Em que posição está o trauma entre as estatísticas de morte no Brasil?
O trauma é atualmente considerado uma doença, sendo a terceira principal causa de morte na população brasileira (é superado pelas doenças cardiovasculares e neoplasias). Na população jovem, até 40 anos, é a principal causa de óbito. Em 2004, o trauma, também chamado de causa externa, foi responsável por 127.470 óbitos.

Quais são os principais fatores que levam uma pessoa a ter um trauma?
No Brasil, a principal causa de traumas fatais são os homicídios, que fazem parte da violência interpessoal. Os eventos de trânsito também são uma importante causa de traumas, além de quedas. Na maioria das vezes, o trauma é resultado de descuido ou falta de prevenção, não sendo adequado o uso indiscriminado da palavra acidente, pois, geralmente, um evento traumático pode ser evitado, deixando de ser um acidente. A ingestão de bebida alcoólica por um motorista, que, na seqüência, dirige e bate o carro é um trauma, mas não devemos chamar de acidente, pois o álcool pode ter desencadeado esse evento, e isso poderia ter sido prevenido.

No caso do atendimento imediato, quais são as dicas para quem presencia um acidente? O brasileiro sabe socorrer suas vítimas?
Hoje, a maioria das grandes cidades tem serviço de atendimento pré-hospitalar, que é o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Ao presenciar um acidente, a primeira coisa que deve ser verificada é a segurança. Caso ocorra uma batida de automóvel ou atropelamento, a prioridade inicial é desviar o trânsito e garantir segurança para o atendimento da vítima. Essa pessoa também precisa se preocupar com a própria segurança, antes de pensar em socorrer a vítima. Deve pedir ajuda a outras pessoas próximas e ligar 192, para o Samu, pedindo orientações e auxílio. Em algumas cidades onde não existe o Samu, peça auxílio ao Corpo de Bombeiros (Resgate -193) ou Polícia Militar (190). Não movimente a vítima e, caso esteja consciente, tente acalmá-la. Muitos brasileiros já conhecem essas informações, mas atender diretamente uma vítima exige treinamento, e são poucas as pessoas que não são da área de saúde, capacitadas para o atendimento. Portanto, de maneira geral, o brasileiro precisa de mais informações sobre atendimento a traumatizados, e o ideal é evitar a ocorrência de um segundo trauma, desencadeado por um procedimento inadequado.

Em que se constitui a cirurgia do trauma? Esse procedimento é eficaz em todas as circunstâncias?
A cirurgia do trauma é uma área de atuação da cirurgia geral, em que o profissional com treinamento específico é capacitado para atender essas vítimas de causas externas, realizando diagnósticos e tratamentos, cirúrgicos ou não. É esse profissional quem deve fazer o atendimento inicial de uma vítima de trauma, em ação conjunta com os demais profissionais (enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e outros) e outras especialidades médicas (ortopedia, neurocirurgia, terapia intensiva etc.). Atualmente, muitos profissionais que atuam com cirurgia do trauma, que é diferente da área de traumatologia, feita pelos ortopedistas (refere-se a traumas ortopédicos), buscam o reconhecimento dessa área como uma especialidade médica, para que o cirurgião possa ter um treinamento específico na área de urgências cirúrgicas e trauma. A gestante procura um ginecologista obstetra para fazer o seu parto, a mãe leva o seu filho ao pediatra, o avô se consulta com um geriatra, e o traumatizado, que muitas vezes está até impossibilitado de fazer sua opção? Será que no hospital para o qual ele será transportado existe um profissional bem treinado para atendê-lo? A epidemiologia aponta para a necessidade da formação de cirurgiões do trauma no Brasil. Quanto à eficiência dos procedimentos, o profissional capacitado saberá, baseado no mecanismo de trauma, suspeitar das prováveis lesões, indicar os métodos complementares necessários, recomendar os tratamentos e diferentes procedimentos, tentando garantir um bom resultado para o paciente. Na maioria das vezes, não é necessário tratamento cirúrgico, mas o médico precisa fazer diagnóstico precoce das lesões e indicar o tratamento adequado.

Quais foram os principais tópicos abordados no 2º Simpósio Internacional de Cirurgia do Trauma?
O simpósio contou com a presença de um convidado estrangeiro, Alberto Garcia, de Cali, na Colômbia. Devido às altas taxas de violência naquele país, esse cirurgião tem grande experiência em trauma. Ele abordou justamente o tema redução da violência, mostrando as eficientes medidas que foram adotadas com sucesso na Colômbia recentemente. Outro tema abordado foi sobre a integração entre o pré e o intra-hospitalar. Professores de Porto Alegre, Belo Horizonte, Manaus, São Paulo, Campinas e outros centros debateram a realidade de cada cidade e o que pode ser melhorado. Também houve temas mais específicos para cirurgiões, como trauma de tórax e da bacia.

O que é o Projeto Trauma e quais são as principais propostas? Inclui profissionais de todo o país ou é restrito a São Paulo?
O Projeto Trauma é uma proposta de abrangência nacional, encabeçado pela Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Traumatizado (Sbait), juntamente com outras sociedades médicas, como o Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC), a Sociedade Brasileira de Ortopedia de Traumatologia (Sbot), a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN), a Associação Médica Brasileira (AMB) e a Associação Paulista de Medicina, entre outras. As principais propostas são: fazer com que a sociedade brasileira entenda que trauma é uma doença, que muitas vezes pode ser evitada; desenvolver sistemas e registros de trauma, criando uma rede hospitalar, hierarquizada para o atendimento, com anotações das informações de todo o atendimento e evolução do paciente, com monitoração dos resultados e controle da qualidade e redução da morbidade e mortalidade decorrente de trauma.

Qual é o profissional habilitado para socorrer uma vítima de trauma? Como é feito seu treinamento (atualização)?
Todo médico que trabalha em pronto-socorro, com urgências e emergências, deve saber prestar o atendimento inicial ao traumatizado. Nos hospitais de referência para o atendimento dessas vítimas, nos quais ocorrem vários casos diariamente, deve haver um cirurgião habilitado para essa prestação de socorro. Preferencialmente, deve ser um cirurgião-geral, com treinamento de dois anos de residência médica, complementado com mais dois anos de cirurgia avançada, que antigamente era denominado como cirurgia geral e trauma. Portanto, o ideal é que esse profissional tenha um treinamento mínimo de quatro anos para prestar um atendimento de qualidade em vítimas graves de traumatismo. Obviamente que outros especialistas também participam desse atendimento.

O Sistema Único de Saúde (SUS) comporta a demanda de pacientes vítimas de traumas? O que precisa ser melhorado?
Atualmente, o governo vem investindo muito no atendimento pré-hospitalar, com a disseminação do Samu. É um elo importante do sistema, mas, devido ao excesso de pacientes que precisam de atendimento no SUS, a área hospitalar encontra-se sobrecarregada. Nas grandes cidades, muitos hospitais não comportam a demanda, faltando leitos de terapia intensiva, aparelhos (sem tomografia computadorizada, fica muito difícil atender um traumatizado grave), e também médicos especializados no tratamento de urgências traumáticas. As melhorias podem vir com mais investimentos na área de saúde e a criação dos sistemas de trauma. Um sistema de trauma é o resultado de um esforço coordenado e organizado, em um área geográfica definida para prover todos os cuidados necessários, a todos pacientes traumatizados e que seja integrado com o sistema de saúde público local. O verdadeiro valor do sistema de trauma é a transição entre cada fase do atendimento, integrando os recursos existentes para atingir o melhor resultado possível.

Como deve ser feita a integração entre o sistema de atendimento pré-hospitalar e o intra-hospitalar? Isso já funciona eficazmente na rede pública do Brasil?
A integração deve ser feita com a organização dos sistemas de trauma, integrando profissionais de diferentes serviços. Com discussão nos comitês municipais de urgência e emergência, participação das sociedades médicas, dos conselhos de saúde, e da própria sociedade organizada, é que teremos essa integração. Infelizmente, no Brasil, não funciona ainda de modo eficaz, precisando de investimentos e de profissionais que se dediquem a essa missão, para que tenhamos resultados em alguns anos.

Como estão as pesquisas no Brasil e no mundo nessa área?
Recentes avanços na área de cirurgia vêm ocorrendo nos últimos anos, principalmente em trauma. O desenvolvimento dos métodos de imagem, principalmente a tomografia, tem permitido que muitas vítimas, que no passado eram operadas, sejam atualmente observadas, sem precisar de cirurgia. Os diagnósticos estão ficando cada vez mais precisos. Na área de hemorragia, que pode causar choque hipovolêmico, novos líquidos de reposição vêm surgindo. Também o conceito de controle de danos, ou seja, num paciente em situação crítica, com alterações na coagulação e com acidose e baixa temperatura corpórea, a cirurgia deve ser interrompida para continuação num segundo momento. O próprio desenvolvimento dos sistemas de trauma é um grande avanço em países desenvolvidos. Porém, no Brasil, pesquisas nessa área ainda são pouco freqüentes, sendo necessário um maior financiamento pelo governo e agências de fomento.

 

Ellen Cristie

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