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Sociedade Brasileira de
Atendimento Integrado
ao Traumatizado

25 anos 25 anos - combatendo a doença de trauma

Correio Popular - Agosto / 2007

Fábio Gallacci, gallacci@rac.com.br

Cali usa Fecha-Bar para conter violência.

Políticas públicas atacam a criminalidade em várias frentes e derrubam índices de homicídios na cidade da Colômbia, um exemplo de que é possível reverter cenário violento ao aliar o controle sistemático de dados sobre o perfil e mapa dos crimes a medidas como a redução no consumo do álcool e o rigor em relação às armas

DA AGÊNCIA ANHANGÜERA

Foto reportagem - Correio Popular

A violência tem lugar, dia e hora para acontecer e pode sim ser controlada com medidas práticas e viáveis de serem aplicadas. Basta seriedade, vontade política e, principalmente, persistência por parte das autoridades. Um estudo realizado por médicos colombianos — iniciado na década de 90 e que se estende até os dias de hoje no país — prova que diminuir o consumo de álcool, combater o porte ilegal de armas, além de ampliar a vigilância policial preventiva nas áreas comprovadamente mais problemáticas, são importantes instrumentos para reduzir de fato a ocorrência de homicídios em qualquer lugar do mundo. Nesse sentido, ações como as operações Fecha-Bar — adotadas na região pela cidades de Sumaré, Hortolândia e Nova Odessa — são iniciativas que merecem ser seguidas.

Os exemplos de que é possível reverter essa situação que parece sem solução foram trazidos pelo médico Alberto Garcia, de Cali, convidado especial do 5 Curso Internacional de Urgências Cirúrgicas e Trauma do Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, realizado no auditório do Hospital Celso Pierro, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Campinas), no mês passado.

Segundo ele, a aplicação de políticas públicas de combate à violência deu resultado positivo na Colômbia, país conhecido pelos altos índices de homicídios. “Há dez anos, Medellín registrava mais de 200 homicídios para cada 100 mil habitantes. Atualmente, com medidas de controle, tem menos de 40”, aponta. Já em Cali, onde as políticas eram aplicadas em 2006 e, por um momento deixaram de ser este ano, as estatísticas voltaram a subir. “Em janeiro de 2006, registramos 131 mortes e em fevereiro foram 87. Em janeiro deste ano, sem as políticas, o número pulou para 153. Em fevereiro foram 111 homicídios. Os mortos eram, principalmente, homens, entre 14 e 45 anos de idade”, afirma o médico. Leia os principais trechos da entrevista concedida por Garcia à Agência Anhangüera de Notícias (AAN):

AAN - Como é o trabalho de combate à violência desenvolvido na Colômbia?

Alberto Garcia - Na década de 70, a situação geográfica privilegiada da Colômbia fez com que o país se transformasse em um ponto muito importante para quem produzia e traficava drogas. Entre os anos 70 e 90, a Colômbia se transformou em uma potência mundial na produção e tráfico de entorpecentes. Como resultado disso, o respeito entre as pessoas e pela própria vida foi diminuindo e se instalou uma cultura de resolução violenta dos problemas. Até a metade dos anos 90, sobretudo nas grandes cidades do país, os homicídios se transformaram em um dos principais problemas de saúde pública. Os homicídios são a primeira causa de morte em nosso país. Na primeira metade da década de 90, chegaram a ser registrados 120 assassinatos para cada 100 mil habitantes. A cifra atual gira em torno de 50 ou 60 homicídios. Comparando com o Brasil, que está ao redor de 25, ou com as cifras de países civilizados, que chegam a no máximo de dois assassinatos por 100 mil pessoas, os números na Colômbia ainda são muito grandes.

Qual o primeiro passo que foi dado para tentar resolver essa situação?

Na segunda metade dos anos 90, diferentes grupos de pessoas — os médicos, inclusive — começaram a se debruçar para resolver o problema. Os governantes e as pessoas que administravam as cidades reconheceram que isso era um problema de saúde pública. Começaram, então, a serem considerados diferentes métodos para tentar reduzir as mortes. Com isso, chegou-se à conclusão de que as pessoas envolvidas nesses crimes passavam por uma infância repleta de informações e padrões de comportamento quase irremediáveis que as faziam resolver seus problemas de forma violenta. Se víssemos apenas por esse ponto de vista, poderíamos pensar que não haveria solução para o problema. Mas, como em todas as questões de saúde pública, essa é uma questão que não tem apenas uma dimensão. Tem várias outras.

Quais são essas outras dimensões?

No meio ambiente, existem variáveis que podem facilitar ou impedir o comportamento violento. Chegou-se à conclusão, por exemplo, que o consumo de bebidas alcoólicas ou de outras substâncias psicoativas está muito relacionado à ocorrência de crimes. Também se concluiu que certas condições locais poderiam facilitar a expressão desse comportamento violento. Em Cali (cidade colombiana com mais de 2,3 milhões de habitantes), foi criado um sistema de vigilância em relação à violência e às mortes por traumas. De maneira bastante detalhada e contínua, foi possível obter informações sobre quem são os mortos, em que parte da cidade morrem essas pessoas, que dia da semana e até a hora em que essas ocorrências acontecem. Com isso, os governantes podem saber que, aos sábados, das 21h às 9h do dia seguinte, acontecem mais mortes em determinado ponto da cidade. Assim como em outra parte os crimes acontecem às quintas-feiras, das 18h às 22h, e em um terceiro ponto, o problema maior é registrado aos domingos, das 14h às 20h. Com essas informações, se pode tomar medidas precisas.

Que medidas podem ser tomadas de imediato? Algumas cidades da região de Campinas, por exemplo, adotaram a política do Fecha-Bar para diminuir o consumo de álcool e evitar problemas, principalmente nos finais de semana.

Em Cali, por exemplo, foi estabelecido que depois das duas horas da madrugada não se pode vender bebidas alcoólicas em nenhum local. Os lugares onde as pessoas vão se divertir também têm de fechar, obrigatoriamente, às 2h. A população não gosta dessas medidas, muitos menos os donos dos estabelecimentos, mas isso efetivamente diminui a mortalidade por homicídios e por traumas. Os números comprovam que se trata de uma medida importante.

Além do comportamento violento das pessoas, quais outras causas dos homicídios?

A facilidade para portar armas de fogo ou de outros tipos também tem sido apontado como algo que facilita a expressão máxima do comportamento violento. Mas não basta apenas comunicar formalmente, ou pelo jornais, que as pessoas não podem carregar armas. É preciso uma ação policial que localize essas armas durante operações sistemáticas e as recolha.

Recentemente, em um plebiscito no Brasil, foi decidido que os cidadãos têm o direito de portar armas, desde que possuam a devida documentação para isso. A sociedade tem ânsia de se armar para se defender. Essa é a solução ou apenas aumenta o problema?

Nos Estados Unidos, existe essa cultura. Durante toda a sua história, os norte-americanos viveram com a crença de que há um inimigo e que ele sempre tem que estar na mira. Seja dentro ou fora do país. Eles acreditam que é importante ter uma arma em casa para se defender. Qualquer jovem tem facilidade para comprar uma arma em um supermercado lá ou encontram armas em suas casas e, com elas, acontecem tragédias muito graves. Mas também existem casos como o Canadá e a Bélgica, onde a quantidade de armas entre a população é parecido com a dos EUA. Mas a cultura do uso das armas é completamente diferente. No Canadá, as pessoas têm armas para caçar. Na Bélgica, em cada casa, existe um fuzil do exército, que as pessoas não tocam. A menos que o país entre em guerra. Então, não se trata apenas de ter ou não armas, mas da cultura de cada comunidade. Na Colômbia, a cultura é parecida com a norte-americana.

Em relação às políticas de combate à violência, quais os fatores básicos que devem ser seguidos pelos governantes?

As medidas mais importantes são as que inibem o consumo de álcool e o porte de armas. Além disso, é necessário um trabalho nas comunidades mais problemáticas, buscando reduzir a violência intrafamiliar e procurando fortalecer a adoção de uma cultura de solução não-violenta dos conflitos. Trabalhar nas favelas e atuar com os jovens também é fundamental. É preciso mostrar que é possível solucionar os problemas sem a necessidade de se pegar em um revólver e dar um tiro contra outra pessoa. Ainda é muito importante que, cada vez que se decida implantar uma política que busque a diminuição da violência, as autoridades se assegurem de que todos os pontos determinados estão sendo cumpridos à risca. E, por outra parte, é indispensável a medição dos resultados obtidos com essas políticas. Por isso, o sistema de vigilância em relação às mortes tem que estar operando de maneira contínua, gerando informações que possam orientar as autoridades a aplicar suas medidas da melhor forma e nos locais mais necessitados desse tipo de ação. Em Cali, foi criado um sistema de vigilância em relação à violência e às mortes por traumas. De maneira detalhada e contínua, foi possível obter informações sobre quem são os mortos, em que parte da cidade morrem, em que dia da semana e até a hora. Com essas informações, se pode tomar medidas precisas.

O Dr. Alberto Garcia esteve em Campinas para participar de evento com apoio da Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Traumatizado (SBAIT).

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